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A DONA DE CASA NO ESPAÇO PARISIENSE NO SÉCULO XIX - Por Laura Sánchez

Nestes dias me deparei com um livro, na minha biblioteca, da autora Michelle Perrot (2017), sobre os excluídos da História. O livro analisa três grupos sociais periféricos – operários, mulheres e prisioneiros –, na França do século XIX. Prestei uma especial atenção a um dos itens do sumário “A dona de casa no espaço parisiense no século XIX” e já que venho estudando e escrevendo há alguns anos sobre as rotinas das mulheres oitocentistas, percebo que a partir do estudo e análise dos elementos e detalhes das suas rotinas, podem-se vislumbrar diferentes dimensões da realidade que não são externas a elas mesmas, como, por exemplo, as estruturas sociais da época.

Apesar das donas de casa do século XIX serem maioria e uma das classes mais populares urbanas, existiam forças patriarcais fortes que resistiam à inserção delas no mundo laboral. Assim, elas passavam suas existências confinadas ao lar, casadas, designadas a dar à luz e criar os filhos, sem direito a vida pública.

Mas como era exatamente a rotina delas? Tarefas como trabalhos domésticos, alimentação, aquecimento, cuidados das roupas e transporte de água pertenciam à mulher, que não era remunerada. Algumas inclusive realizavam trabalhos em fábricas, serviços de entrega de pão ou faxina em outras casas para melhorar a vida doméstica da família ou compensar o salário do patriarca da casa.

Este fenômeno da mulher do lar sair à rua para trabalhar insere o conceito do “espaço” onde ela precisará se deslocar pela cidade. Esse deslocamento não era igual para a mulher do povo e para a mulher burguesa, já que esta última tinha um modo de circulação mais rígido e controlado pelo homem.

E desse modo, na Paris oitocentista, o uso sexuado do espaço urbano segundo Perrot (2017), tinha uma estruturação acentuada dos espaços masculinos e femininos, que representavam de maneira sutil as tarefas ligadas a cada gênero.

Em tempos de crises e com o forte impulso urbano se produz um desequilíbrio de gêneros que se mistura com esquemas da sociedade rural estabelecendo uma vida mais incerta e indefinida. As mulheres se misturam com os homens e surgem espaços mistos. A dona de casa agora circula pela cidade e se instala em qualquer lugar, procurando recursos em tempos de crise.

Ao mesmo tempo, essas mulheres parisienses começam a utilizar os espaços públicos para pedir seus direitos que lhes são negados e, então, começa uma segregação sexual crescente pelo espaço urbano. O espaço público como espaço político é reservado aos homens da alta sociedade, as mulheres e operários são excluídos dos assuntos políticos e surge a “Sociedade do Café” (Philippe Ariés), de onde as mulheres estão excluídas e não há espaço para a sua palavra. As que querem lutar se vestem de homens para se inserir nos espaços, como Louise Michel que declara nostálgica nas suas memórias: “Essa questão idiota de sexo estava acabada”.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que os homens proíbem a livre circulação das mulheres pelos espaços públicos e a manifestação das suas ideias, a mulher se torna o espetáculo do homem desde que ela passa a enfeitar retratos, quadros, fotografias e igrejas. Assim, visualmente, a mulher parisiense oitocentista se torna iconografia e atinge seu apogeu na art nouveau. Nessa evolução lenta, a mulher do povo se mantem presente na cidade do século XIX como representante da composição das moradias, da cidade, da natureza e como sendo parte da própria mobília.

Esta coluna de hoje tem o intuito de retratar um pouco da História e das Memórias das donas de casa Parisienses oitocentistas, de permitir uma reflexão sobre como evoluiu desde o Século XIX até nossos dias os papeis das mulheres e dos homens nos diferentes espaços e tempos.

 

Referências

ARIÉS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada – V3. Da Renascença ao século das luzes. Companhia das Letras: São Paulo, 2009.

PERROT, Michelle. Os excluídos da história. Operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Editora Paz &Terra; 2017.