Reflexões sobre memória e esquecimento

Bertonihouse

Casa de Moisés Bertoni/Divulgação

Por Laura Sánchez

Nestes últimos anos de estudo e escrita venho me dedicando a mergulhar no universo da História e das memórias, o que tem me brindado satisfações, mas também algumas decepções relacionadas aos descasos relacionados à preservação dos nossos patrimônios culturais e das personalidades que contribuíram com a nossa história.

A primeira vez que me deparei com esta temática foi no ano 2005, com a descoberta da história do erudito e colecionador espanhol Vincencio Juan de Lastanosa (1607–1681), cuja personalidade foi apagada durante quatro séculos.

A segunda foi quando organizei meu projeto de mestrado na linha “Território, História e Memória”. Nessa época, já estava inevitavelmente envolvida com a temática e emergi na personalidade da escritora potiguar considerada, por vários autores, a primeira feminista do Brasil, Nísia Floresta (1810–1885). Hoje, após dois anos, já na fase final do trabalho, mesmo depois de ter apresentado artigos em vários congressos e visitado a cidade natal, o museu e túmulo da escritora, também descobri com tristeza o descaso e o grande desconhecimento sobre esta figura.

E agora com um novo pré-projeto de doutorado em andamento, mais um caso de memória e esquecimento. E desta vez não precisei ir muito longe: o Museu Monumento Científico e Natural Moisés Bertoni. Criado no ano 1955 e situado na cidade paraguaia de Presidente Franco, o museu mostra uma preservação precária dos livros e manuscritos. Dentro de uma casa simples de madeira a deterioração das obras é um fato. Muitas publicações científicas e coleções se perderam.

Algumas instituições estão fazendo o esforço de preservar a memória de Bertoni, a partir da manutenção do museu dedicado à sua personalidade. Por isso, através do decreto 11.270, os 199 hectares de terra de Puerto Bertoni, no Departamento do Alto Paraná, foram protegidos como Monumento Científico Moisés Bertoni, Patrimônio Natural e Cultural do Paraguai, administrado pela Direção de Áreas protegidas da Secretaria do Meio Ambiente do Paraguai. Porém, sabemos que ainda há muito que preservar e divulgar sobre essa personalidade. É através do respeito e proteção a sua memória que o patrimônio cultural da própria região paranaense estará fazendo parte fundamental no cultivo da identidade e no crescimento cultural da humanidade.

Observo assim que, nesta época em que História e Memória são temas de interesse e debates em crescente desenvolvimento, constata-se paradoxalmente uma perda de memória e de patrimônio cultural acompanhada de uma saturação de informações e estudos sobre a sua própria restauração.

Assim, perante esta realidade e outras muitas similares, algumas considerações neste contexto sobre memória se constituem como uma estratégia de caráter social e sociológico e passam a ser estudadas junto à disciplina de História nas nossas faculdades. Estas duas grandes áreas – História e Memória – são objeto de reflexões teóricas e de trabalhos de campo, aplicadas a resgates de acontecimentos históricos, patrimônios culturais e personalidades que de outra forma estavam destinadas ao esquecimento e ao silêncio.

De qualquer forma, a memória pela sua própria natureza não é algo que possa simplesmente se perder ou repor. A memória apresenta-se enquanto assunto desafiador já que, também mediante ela, se pode inverter o sentido dos fatos históricos. É a memória que faz possível a existência das restaurações das histórias coletivas e dos patrimônios culturais. Contudo, memória é um depósito de registros, de histórias que de outro modo se perderiam no vazio de um tempo que já é irrecuperável.

Assim, estudar e debater sobre Memória e História é entrar em um campo de discussões que envolvem o esquecimento, ou seja, a capacidade de recuperar algo que se possuía e que se perdeu. Historiadores e interessados na preservação de bens culturais têm observado como esse patrimônio vem sendo destruído, às vezes até de modo proposital, como ocorreu no Iraque e na Síria, locais nos quais em minutos desaparecem construções que precisaram de séculos de esforços e até de vidas humanas para existir. Consequentemente a esses fatos, surgem movimentos de “patrimonialização” que objetivam proteger estes patrimônios culturais.

Parece que há uma consciência mais historiográfica e antropológica em geral nesses recentes anos que surgem após o descaso da própria modernidade pelo seu passado. Lembro-me das letras de Luís Borges, inspirado em Aristóteles e Agostino, quando dizia “prestes a desaparecer no passado no momento mesmo em que anuncia o futuro, o presente esta condenado a agonizar desde o momento em que acontece”. E refletindo sobre uma das afirmações de Candau (2016). “ A ideia segundo as experiências passadas seriam memorizadas, conservadas e recuperadas em toda sua integridade parece insustentável”. Poderíamos pensar, então que as memórias estão destinadas a um progressivo esquecimento?

Existem âncoras expandidas pelo mundo destas memórias que têm a importante função de preservar esse passado, entre elas, os museus. Porém, o que acontece quando esses museus não cumprem com a função de proteger os patrimônios culturais e mantêm viva a memória dos que os representam deixando-os cair no esquecimento?