No bolsão do agronegócio, agricultores criam ‘ilha’ de orgânicos

Denise Paro

De Pato Bragado

Mais de 100 famílias de pequenos agricultores da região Oeste sobrevivem do plantio de orgânicos

Na região Oeste, em pleno bolsão do agronegócio, onde o cenário é dominado pela plantação de milho, soja e a criação de suínos, mais de 100 famílias dos municípios lindeiros ao Lago de Itaipu sobrevivem do plantio de orgânicos e espalham saúde e respeito ao meio ambiente.

A maior parte dos agricultores, ou seja, um total de 70, têm certificação de produção orgânica concedida pela Rede Ecovida. Eles cultivam frutas, legumes, verduras e comercializam massas. A produção é vendida principalmente no mercado local e boa parte direcionada à merenda escolar do município de Pato Bragado, a 150 quilômetros de Foz do Iguaçu.

Com a farta produção agrícola na região, o único colégio de Pato Bragado, a Escola Municipal Marechal Deodoro, tem na merenda escolar 45 itens originados na produção da agricultura familiar. As verduras e as frutas são orgânicas, incluindo milho verde, abóbora, mandioca, conforme a época. Por ter fornecedor local, a nutricionista da escola, Janice Hachmann, conseguiu tirar vários itens derivados de alimentos enlatados do cardápio. Lá os 500 alunos não consomem mais extrato de tomate. “Priorizamos a agricultura local porque sabemos de onde vem”, diz Janice.

Mas não são apenas os itens orgânicos da merenda que chegam para os estudantes. Frequentemente, eles visitam as propriedades para saber como é feito o cultivo e recebem agricultores na escola. Nesse momento teoria e prática tornam-se aliadas. A experiência em campo passa a ser motivo de aprendizado em sala de aula.

Representante da Rede Ecovida, Cristiani Cavilhão diz que os 70 agricultores que têm o selo de certificação de produção orgânica estão estabelecidos em vários municípios da região Oeste, entre Foz do Iguaçu e Guaíra. A Rede Ecovida é formada por grupos de produtores, técnicos e consumidores responsáveis pela fiscalização e certificação das propriedades. Para ter a propriedade enquadrada na Lei 10.831 de 23 de dezembro de 2003, que dispõe sobre a agricultura orgânica, o produtor precisa estar vinculado à rede há pelo menos um ano. Além da Ecovida, atuam na região outras certificadoras de orgânicos, incluindo a Tecpar – Instituto de Tecnologia do Paraná/Unioeste e IBD Certificações , que faz certificação por auditoria.

Presidente da Associação de Produtores Orgânicos de Pato Bragado, o agricultor Valmir Anderle diz que a presença de produtores orgânicos na região não significa que há valorização. “O grande problema nosso é que na região o supermercado não quer diferenciar o que é orgânico ou não”. A associação foi criada há 16 anos com apoio do Sebrae e atualmente reúne 21 famílias. Às sextas-feiras, das 16h às 20h30, os produtos são vendidos em uma feira montada na praça de Pato Bragado.

“Priorizamos a agricultura local porque sabemos de onde vem”, diz Janice.

Orgânicos no lugar dos agrotóxicos

Gaúcho de Santa Rosa (RS), Valmir Anderle, 58 anos, deixou a agricultura convencional e o uso de agrotóxicos nas plantações há três décadas. Ele e a mulher Clarice Borelli Anderle, 55 anos, trabalhavam em terras arrendadas e acumulavam prejuízo. Depois de fazer a capacitação para atuar na agricultura orgânica, a vida da família passou a ser outra. “Antes nós trabalhávamos no vermelho. Hoje tiramos férias todos os anos e estamos todos bem”, conta Clarice.

Os Anderle cultivam frutas e hortaliças em uma área de um alqueire anexa à própria residência, situada no centro de Pato Bragado. Exemplar, a propriedade já recebeu visitantes de mais de 30 países. O movimento é maior durante a colheita da uva, entre novembro e o início de janeiro, quando a plantação é cobiçada pela clientela.

Para a família, a agricultura orgânica é muito mais do que um jeito diferente de plantar. A concepção do plantio implica também em uma nova visão de mundo. “Os orgânicos nos dão uma dimensão na qual você pensa no próximo”, diz Valmir.

Agricultora tornou-se empresária do ramo de massas

Maria Tolfo produz massas orgânicas há sete anos. Ela começou vendendo frango, ovos, leite e bolachas, mas chegou uma hora que a clientela começou a pedir macarrão. Para atender a demanda, Maria viajou para Santa Catarina, comprou uma máquina, começou a fazer a própria massa e montou uma pequena fábrica no fundo de casa.

Na propriedade, ela produz beterraba, cenoura e espinafre usados nas massas. O trigo orgânico adquirido para fazer os produtos também tem certificação. O resultado é promissor. Maria hoje fornece massas orgânicas para os estados do Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul e tem duas funcionárias. Para a merenda escolar de Pato Bragado saem todo ano cerca de 5 mil quilos de massas. “A demanda está aumentando” , diz.

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Massas orgânicas é o carro-chefe da produção de Maria. Foto Denise Paro/Front Press