Dia 8 de março e a invisibilidade histórica das mulheres intelectuais

Laura Sánchez

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, pode parecer que as mulheres são ouvidas e têm voz na mídia ou em outros ambientes, mas não podemos esquecer que nem sempre foi assim. De fato, se me ocorre que se a mulher fosse escutada, valorizada e respeitada, não existiria o Dia da Mulher, assim como não existe o Dia do Homem.

O fato é que as mulheres foram silenciadas pela própria historiografia durante séculos, inclusive aquelas mais voltadas para a intelectualidade, pois eram vistas como uma ameaça para uma sociedade dominada principalmente por homens. A minha coluna de hoje versará sobre esta temática, e para isso, resgato alguns trechos da minha própria dissertação de mestrado que já foi defendida e concluída na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste.

Estudando historiografia observamos que esta não contemplou o gênero feminino como objeto de estudo e em consequência existiu um silêncio e uma invisibilidade das mulheres ao longo da história. E sem relatos, sem história escrita – historiografia – as mulheres durante séculos ficaram silenciadas, fora do seu tempo e espaço. Esse silêncio, além de se perpetuar durante tanto tempo, também envolveu uma invisibilidade que entre outros fatores pode se explicar a partir da concepção de que a mulher vivia confinada a seu lar.

A mulher cuidava da casa, do marido e dos filhos e essa realidade não era uma opção, era uma forma de garantir a ordem de uma sociedade particularmente patriarcal.

Do ponto de vista da historiografia não existia vida pública da mulher antes do século XIX.

Que a mulher conserve seu silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em transgressão. Elas devem pagar por sua falta num silêncio eterno.” (Carta do Apóstolo Paulo para Timóteo, capítulo 2, versículos 11, 12, 13,14 e 15).

Desde os gregos, a fala de mulheres em público era um ato indecente. Aqui, lembra-se o caso clássico de Hipátia de Alexandria, considerada pela mesma história como a primeira mulher científica, filósofa grega, que recebeu uma forte educação Neoplatônica, mas que foi brutalmente assassinada por uma multidão de homens cristãos. Este preconceito pela intelectualidade feminina ainda se estendeu pelo século XVII.

Já no século XVIII o filósofo Arthur Schopenhauer sustentava que o simples aspecto da mulher revela que ela não é destinada nem aos grandes trabalhos intelectuais nem aos grandes trabalhos materiais. [...]

“A natureza, recusando-lhes a força, deu-lhes a astúcia para lhes proteger a fraqueza: de onde resultam a instintiva velhacaria e a invencível tendência à simulação do sexo feminino” e mais, que “a mulher é um animal de cabelos longos e ideias curtas” (FERNANDES, 2008).

Michelle Perrot (2006) também levava em consideração o peso do silêncio das fontes à hora de trazer as memórias do gênero feminino à luz.

As mulheres deixavam poucas marcas escritas e algumas delas usavam pseudônimos masculinos, como foram Virginia Woolf (1882–1941), Mary Ann Evans (1819–1880), Rosalía de Castro (1837–1885), Jane Austen (1775–1817), Sidonie Gabrielle Colette (1873–1954), Charlotte Brontë (1816–1855), entre outras, para poder publicar seus escritos. As mulheres não tinham sobrenome, apenas nome e o sobrenome do marido.

Perrot (2005), sustentava que a mulher conseguiu registrar experiências onde lhe era permitida, restrita, evidentemente, ao espaço doméstico, privado.

A mulher ficou reduzida ao espaço privado, ela nunca foi chamada a fazer parte da cena histórica e teve de desenvolver estratégias de sobrevivência naquilo que lhe restou: o lar. Por isso, a memória do privado coube à mulher. Era ela quem cultuava os mortos e suas tumbas, sendo a forma de comunicação dominante a oralidade, passada, geralmente, de mãe para filha. Mas muita coisa se perdeu devido a mudanças de casa, ao desprezo por se tratar de mulher e ao embaraço pelo conteúdo legado (PERROT, 2005 p. 519).

O medo de serem descobertas pelos homens como portadoras de alguma intelectualidade ou independência de pensamento as levava a escrever escondidas à luz de um abajur no seu quarto. Escreviam às vezes, a modo de catarse de uma vida dedicada aos outros onde seus próprios sentimentos e ideias não tinham cabimento. E paradoxalmente algumas vezes eram elas mesmas que apagavam suas memórias quando chegavam à velhice.

"Até o mesmo corpo das mulheres amedronta. É preferível que esteja coberto de véus” (PERROT, 2006). Afinal, como ainda apontava Perrot (2005, p. 17), deviam pensar: elas são apenas mulheres, cuja vida não conta muito. Existe até um pudor feminino que se estende à memória. Uma desvalorização das mulheres por si mesmas. Um silêncio consubstancial à noção de honra.

Este trecho descreve como a mulher era vista no que concernia à sua capacidade intelectual na época:

Ela foi formada para sentir, como o homem foi criado para pensar; superior a ele em sagacidade e prontidão em compreender; é, contudo muito inferior em raciocínio e reflexão: aquelas que têm apresentado uma inteligência superior têm sido sempre à custa de suas qualidades femininas (COSTA, 1989, p. 28).

Ainda na sua fala Perrot (2015) continua: “o silencio mais profundo é do relato”. Relatos femininos, discursos de ou sobre mulheres que revelem como elas se expressavam, como se sentiam, o quê anelavam, eram impensáveis nas sociedades passadas.

O relato da história era construído pelos primeiros historiadores gregos ou romanos e dizia a respeito do espaço público: as guerras, os reinados e aos homens ilustres. O mesmo ocorre com as crônicas medievais e as vidas de santos: fala se mais de santos do que de santas. Uma verdadeira autodestruição da memória feminina consciente que pesa na nossa historiografia.

Mas já chegando o século XIX, a história toma uma índole mais profissional e científica dando um espaço maior ao gênero feminino. Inclusive algumas mulheres aristocráticas tentam se ganhar a vida escrevendo e surgem as primeiras autorias femininas do século XIX.

Mas isso é outra pesquisa. Da minha parte considero que, enquanto comemorar o dia 8 de março como Dia da Mulher, existe ainda uma invisibilidade manifesta desta no resto dos dias do ano.